quinta-feira, 7 de abril de 2011

Histórias de Beleriand: Grod e Fimil

Caros leitores, hoje é quinta-feira, meu dia para trazer novos assuntos. Portanto trago a tradução de mais um conto de Beleriand. Espero que apreciem.


A
 primavera, nas Montanhas Azuis, sempre torna as cavernas dos anões ainda mais insuportavelmente úmidas do que o habitual, pelo menos para os serem que caminham sob o céu. Para os anões, a umidade adicional só aumenta o volume de suas barbas, o que eles gostam bastante e que serve para melhorar em muito o seu humor acre.

O humor dos anões está relacionado basicamente a três situações gerais: quando estão apreciando seu tesouro acumulado, observando a luz das tochas reluzir sobre ouro e mitral, rubis e diamantes; quando estão suando sobre a forja, preparando suas obras em metal: armas e ornamentos de guerra; e quando estão guerreando contra inimigos odiados, como gigantes e orcs. Quanto maior o tesouro, mais difícil o trabalho ou mais odiado um inimigo, melhor o humor dos anões. Diante de enormes pilhas de (ouro, armas, corpos) eles podem até esboçar um sorriso ou soltar uma risada discreta de contentamento de dentro das profundezas de suas barbas.

Mas Grod não estava bem humorado, mesmo com sua enorme barba ruiva agigantada pela umidade. Na verdade estava mais emburrado que o de costume. Ele estava a caminho do túnel Norte 42, um local pouco movimentado da Fortaleza de Nogrod, que levava a um veio de hematita, trabalhado apenas no pico da demanda por armas. E não estava sozinho: Fimil estava com ele.

Grod não gostava de Fimil. Ninguém gostava de Fimil, nem sua mãe, mas Fimil gostava de Grod. Fimil era um anão muito atípico, muito curioso. Sempre fazia perguntas inoportunas, perguntas que não tinham respostas ou perguntas com respostas óbvias demais para serem respondidas. Alguns exemplos:

     
Fimil: Por que vivemos dentro das montanhas?
Anão irritado: Ora, seu idiota, porque é mais seguro. Pense antes de perguntar.

Fimil: Por que temos barbas?
Anão irritado: Cale a boca, Fimil! Nós nascemos com barbas porque o Pai dos Anões nos fez assim.

Fimil: Por que odiamos orcs?
Anão irritado: O que mais poderíamos fazer com eles?! Amá-los?!!!

Grod conhecia bem Fimil e não estava nem um pouco ansioso para enfrentar as perguntas dele. Seu irmão o atormentara a infância inteira com suas perguntas. Quase perdera suaa sanidade. O que o salvara foi sair de casa para servir junto aos Mineradores Mal-Humorados de Belegost. Mas ele quase se matou quando seu irmão decidiu seguir em seus passos.

Andavam em silêncio há cerca de uma hora, em direção ao fim do túnel, quando Fimil não pode mais segurar suas perguntas:
— Por que estamos aqui mesmo, Grod?
— Eu já falei três vezes antes! Estamos aqui para investigar as coisas estranhas que estão acontecendo nestas partes.
— Mas que tipo de coisas estranhas? Fimil perguntou, em um tom baixo, percebendo a irritação de Grod.
— Escute Fimil, vou falar apenas mais UMA vez. Alguns mineradores escutaram vozes fantasmagóricas vindas daqui, foram encontrados vários ursos mortos e o que parece ser um pedaço da cauda de um dragão e várias outras coisas. A partir de agora responderei suas próximas perguntas com uma martelada nessa sua cabeça dura, para ver se ela volta ao normal!
— Mas onde foi... ai! A martelada pegou Fimil de surpresa, apesar do aviso anterior. Seu grito ecoou pelo túnel deserto.
— Eu avisei, disse Grod.
— Mas Grod, disse Fimil se esquivando de uma segunda martelada, onde foi parar o resto do dragão?!
­— Onde foi parar o resto do dragão?! Onde foi parar o resto do DRAGÃO?! COMO É QUE EU VOU SABER, SEU IDIOTA! EU TENHO CARA DE BABÁ DE DRAGÕES!?

Sangue subiu à cabeça de Grod. Sangue anão, teimoso, belicoso. Aquelas perguntas o haviam atormentado a vida inteira. Sem saber do perigo iminente que corria, Fimil continuou com suas perguntas:
— E o que um dragão estaria fazendo aqui? Acho que nem caberia neste túnel, é tão estreito. E...o que foi, Grod? Calma aí, são só algumas perguntas inofensivas... Por que você está erguendo seu martelo assim, Grod?

A última pergunta foi a gota d’água e Fimil conseguiu, literalmente, ouvir a sanidade de Grod se partir em dois pedaços ensandecidos. Mas logo antes do martelo de Grod descer sobre a cabeça curiosa de seu irmão, houve um ruído terrível, vindo de uma explosão de certa Gema do Pesar, e depois... nada.

........................................................................................................................................

Grod abriu os olhos. Estava deitado ao sopé de uma montanha muito alta. Ele reconhecida aquela montanha das descrições feitas nos sermões do clérigo Reston. Estava na base da Montanha da Alma, lar do Pai dos Anões. Tudo estava em paz ao seu redor. Ele sentia-se terrível pelo que quase fizera ao seu irmão, mas felizmente quase não contava e havia sido perdoado, já que estava no céu. Levantou-se para iniciar a longa jornada em direção ao pico da montanha, quando escutou uma pergunta:

— Nossa, será que isto é o céu, Grod?

4 comentários:

  1. Hahaha, excelente!

    Gostei muito do anão irritado; "Por que odiamos orcs, o que mais poderíamos fazer com eles?? Amá-los?!?

    Sábia resposta...

    ResponderExcluir
  2. Pobre Grod! Nem no paraíso terá paz!

    ResponderExcluir